O PRIMEIRO DEGRAU

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Chiquinho não é um salvador, nem precisa de o ser. No futebol, como na vida pública, os salvadores costumam chegar tarde e sair cedo. O que lhe cabe é uma tarefa mais modesta e, por isso mesmo, mais difícil: colocar Moçambique no primeiro degrau da sua própria história.

Curiosamente, aquilo que se lhe exige parece pouco. Três pontos. Uma vitória. Mas o pouco pode ser o mais complexo quando um país se habituou a conviver com a derrota como quem convive com um clima adverso: não se escolhe, suporta-se. Há selecções que perdem jogos; outras carregam a derrota no corpo, no gesto, na forma como o jogo se encolhe quando a vitória começa a exigir responsabilidade.

O CAN começou com essa sensação ambígua. Moçambique perdeu com a Costa do Marfim por uma bola. Um resultado curto, quase discreto, que permite todas as leituras: a da competitividade, a do “faltou pouco”, a do orgulho recomposto pela resistência. É o tipo de derrota que não humilha, mas também não liberta. E talvez por isso tenha sido seguida de uma euforia estranha. Disse-se que “temos selecção”, que “travámos aqueles colossos na primeira parte”, que “estivemos perto do empate”. São frases que soam a progresso, mas funcionam sobretudo como anestesia. No futebol, poucas coisas são tão perigosas como aprender a celebrar o fracasso com convicção.

Essas palavras constroem uma zona de conforto onde nada muda. Ensina-se a aceitar a derrota como sinal de maturidade, quando muitas vezes é apenas hábito. É como incentivar alguém a nadar numa piscina sem água: o movimento existe, o esforço é real, mas o corpo acaba por raspar no fundo. Não se aprende a nadar assim. Aprende-se a levantar e a correr.

Agora surge o Gabão. E aqui o cenário muda subtilmente. Gabão e Moçambique chegam a este jogo a partir do mesmo lugar: ambos perderam na primeira jornada. Não é um detalhe menor. No futebol, as equipas raramente jogam apenas contra o adversário; jogam contra a circunstância. E a circunstância, desta vez, coloca frente a frente duas selecções pressionadas pela mesma urgência, pela mesma necessidade de não ficarem para trás.

É neste ponto que a história deixa de ser teórica. Ganhar ao Gabão não é apenas somar pontos; é assumir o peso de lutar por um destino diferente, ainda que por instantes. É trocar o conforto da explicação pelo risco da decisão. Um país que se habituou a perder dá-se mal com esse constrangimento: o de perceber que, desta vez, não há onde se esconder e já ninguém quer celebrar empates.

Chiquinho conhece bem esse território. Esteve em campo no empate com a Tunísia, no CAN da África do Sul. Era jogador. Aquela Tunísia seguiria até à final do torneio. Moçambique foi melhor, jogou melhor e anotou, pelos pés de Tico-Tico um dos golos da competição, só que a Tunísia soube competir e sobreviveu. Daquela vez também não vencemos. O futebol, deste rochedo à beira-mar, construiu-se muitas vezes nesse lugar intermédio, onde a dignidade substitui o resultado e o esforço serve de consolo.

Agora Chiquinho dirige o leme da selecção como técnico, e isso muda a natureza do desafio. Já não se trata de resistir aos grandes, mas de ganhar aos que estão ao alcance. Porque é assim que começam as histórias que avançam: não nos jogos impossíveis, mas naqueles que exigem coragem para aceitar a obrigação de vencer. Depois virão os Camarões, adversário de outra dimensão, outro peso histórico, outra exigência. Mas é precisamente por isso que o jogo com o Gabão assume esta importância silenciosa. No futebol, há partidas que não decidem classificações, mas decidem estados de espírito.

Nunca fui particularmente entusiasta de Chiquinho como treinador. Mas os gostos pessoais contam pouco quando o futebol deixa de ser uma questão estética e passa a ser uma necessidade colectiva. Aqui não se discute estilo; discute-se um desbloqueio. A primeira vitória não é glória; é autorização. Autoriza a selecção a pensar de outra forma, a olhar o jogo sem o reflexo defensivo de quem teme perder antes de tentar ganhar.

Talvez, em termos teóricos, seja mais fácil bater o Gabão. O futebol gosta dessas armadilhas conceptuais. O fácil nunca é simples quando se trata de quebrar padrões antigos. Mas alguém tem de começar. E há momentos em que a história não pede genialidade, apenas firmeza suficiente para subir o primeiro degrau.

Depois disso, sim, o céu pode ser o limite. Mas nenhuma equipa aprende a voar enquanto não prova, uma vez sequer, que sabe ganhar. O primeiro degrau é como o primeiro passo. Custa a subir, exige esforço, equilíbrio e uma certa dose de medo. Mas depois de vencido, percebe-se algo essencial: todos os degraus são iguais. O que muda não é a altura, é a disposição para continuar. Moçambique precisa apenas disso: subir esse primeiro degrau para deixar de olhar a escada como ameaça.

Durante demasiados CAN’s, o nosso futebol do comportou-se como um bebé que aprende a levantar-se agarrado aos móveis. Dá alguns passos, cai, volta a erguer-se com cuidado excessivo, sempre à procura de apoio. O problema é que, enquanto se vive assim, nunca se aprende verdadeiramente a andar. Aprende-se apenas a não cair.

Agora é preciso largar os móveis. Aceitar o risco da queda para descobrir o sabor do movimento. Partir para cima do Gabão sem a protecção das desculpas, sem o conforto do “faltou pouco”. Porque do outro lado não há monstros nem mitos intocáveis. Há uma selecção que também sangra, que também erra, que também treme quando o jogo pede decisão.

O futebol começa a mudar quando se perde o medo de cair. Há um momento em que já não basta crescer em idade; é preciso crescer em responsabilidade. Caso contrário, corremos o risco de chegar à maturidade a pedir licença ao medo, com força para gerar sonhos, mas ainda dependentes de protecções infantis. Ou nos tornamos adultos em campo, com tudo o que isso implica (erro, choque, queda) ou continuaremos a chamar prudência àquilo que é apenas receio. Nenhuma equipa atravessa um limite sem se ferir um pouco. Às vezes é preciso bater no muro, uma e outra vez, até perceber que ele não cede à espera, mas ao impacto. É isso que se pede agora. Tentar tudo. Aceitar o risco. Porque só assim se descobre, finalmente, o sabor da vitória. E só então o primeiro degrau deixa de ser obstáculo para se tornar caminho. (RL)

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