
A opinião de Rui Lamarques
A presente crise da selecção nacional não nasce no Marrocos; germina há muito na cultura de improvisação que domina o nosso futebol e floresce, agora, no terreno fértil do culto de personalidade que se construiu em torno de Chiquinho Conde. O problema não reside apenas nos jogadores que, uma vez mais, decidiram que o país pode esperar enquanto reivindicam privilégios. O problema reside também no treinador que, investido de um poder simbólico exagerado, começou a comportar-se como se estivesse acima da própria Federação e, por extensão, do país.
Um treinador que ocupa funções que não lhe pertencem
As declarações de Chiquinho Conde, dadas recentemente, são o exemplo acabado da confusão de papéis que corrói a estrutura da selecção. Disse ele que:
• “Contactei amigos meus em Portugal porque o CAN vai ser feito em Marrocos.”
• “Escolhemos o Algarve.”
• “Consultei os jogadores, eles adoram o Algarve.”
• “Angola pediu um jogo e eu disse que sim.”
• “A Federação nunca aprovou um plano meu.”
Estas palavras revelam um treinador que se arroga competências que não lhe cabem. Não é o seleccionador que escolhe o local de estágio; é a Federação. Não é o seleccionador que consulta jogadores para tomar decisões administrativas; isso viola toda a hierarquia desportiva. Não é o seleccionador que aceita amistosos em nome da Nação; esses compromissos são celebrados pela entidade que representa juridicamente Moçambique. Um técnico que anuncia que “consultou os jogadores” para decidir a logística expõe deliberadamente a selecção a facções internas. Quem está com ele, está bem; quem discorda, é descartado. É assim que se destrói a autoridade. É assim que se mina a própria soberania institucional.
O erro técnico (e científico) de querer estagiar no clima errado
Por exemplo, pretender preparar um CAN a disputar-se no calor seco do Marrocos num estágio realizado no inverno português é um erro grave para qualquer equipa que aspire a competir a sério. O Algarve, em Janeiro, apresenta temperaturas entre 8 e 15 graus. Marrocos, no mesmo período, regista médias entre 25 e 30 graus. A fisiologia humana não se adapta por capricho: adapta-se pelo ambiente.
Treinar três semanas num clima frio e depois competir no calor da África branca gera:
• perda imediata de rendimento,
• fadiga precoce,
• menor capacidade de recuperação,
• maior risco de lesão.
É por isso que as grandes selecções africanas fazem a sua aclimatação em países de clima equivalente. A CAF recomenda-o. A ciência desportiva confirma-o. Chiquinho Conde, porém, prefere o conforto climático dos seus contactos pessoais e a opinião informal dos jogadores. Isto não é estratégia; é amadorismo mascarado de experiência.
A greve permanente: um ritual da desordem
Os Mambas entraram novamente em greve: no passado foi assim, agora no Marrocos repete-se o guião. Greves que nunca ocorrem em Maputo, sempre no estrangeiro, sempre quando tudo está já pago com dinheiro público. Isto não é reivindicação: é chantagem logística e desgaste diplomático.
Quando jogadores se recusam a treinar com a equipa já instalada no país anfitrião, aquilo que boicotam não é a Federação – é Moçambique. Um atleta que aceita a convocatória, viaja, instala-se e só depois se declara em greve está a agir com má-fé. E só o faz porque sente que nada lhe acontecerá. A impunidade tornou-se política interna.
A raiz do problema: o pedestal que criámos
Dirão alguns que este texto “defende a FMF”. Não defende. A FMF é desorganizada, lenta, por vezes incompetente. Mas a postura de Chiquinho Conde é reveladora do que sucede quando se concede demasiado poder simbólico a um homem: ele deixa de ser treinador e passa a ser uma autoridade paralela.
Quando um seleccionador fala como gestor, negocia como director, e reclama como vítima, o resultado é inevitável: a equipa deixa de ter comando e transforma-se num conjunto de egos descontrolados.
O país precisa de futuro, não de reféns
Se a selecção principal acredita que está acima da Pátria, há uma solução simples e corajosa: levar uma equipa sub-23 ao CAN. Foi assim que os Camarões reconstruíram uma geração.
Uma selecção jovem perde no princípio, mas ganha na alma; perde no curto prazo, mas ganha na estrutura. A médio prazo, a disciplina vence o estrelismo.
E Moçambique não precisa de vedetas fatigadas, mas sim de um projecto.
Em suma: Ninguém é maior do que o País. Nem jogadores que fazem greve quando lhes convém, nem treinadores que se colocam acima da estrutura, nem dirigentes que esquecem a sua missão pública. Um país pequeno, com enormes desafios, não pode permitir que a sua selecção nacional seja palco de vaidades e chantagens.
Moçambique precisa de ordem, visão e coragem, não de heróis fabricados. E a coragem começa, sempre, por recordar a todos que vestem a camisola nacional uma verdade simples e absoluta: o País está em primeiro. Sempre.












